Lar Paulo de Tarso - Um Oásis de Esperança

 

LAR PAULO DE TARSO

Um Oásis de Esperança



Rua Clotilde Machado, 80, Ipsep, Recife - PE CEP: 51350-210  Tel.: 81-3471.0919
Site:  www.iclarpaulodetarso.org.br  /  E-mail: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. 

   

Gezsler Carlos West (Geo)

Recife, 18-04-2017

1Edição

 O amor é a força mais sutil do mundo. - Gandhi 

 

Índice

1. Introdução

2. Crianças e adolescentes em situação de risco social de alta complexidade

3. Modelo da Política Social no Brasil

4. Lar Paulo de Tarso

    4.1. Finalidade

    4.2. Histórico

    4.3. Estrutura organizacional

    4.4. Diretrizes

    4.5. Dinâmica

           4.5.1. Educação e cultura

           4.5.2. Cuidados com a saúde

           4.5.3. Familiares das crianças e dos adolescentes

           4.5.4. Lazer

           4.5.5. Espiritualidade do ser

           4.5.6. Diversos

    4.6. Principais desafios

           4.6.1. Manutenção financeira

           4.6.2. Rotatividade das crianças e dos adolescentes

           4.6.3. Origens diferenciadas

           4.6.4. Problemas psicológicos

    4.7. Resultados percebidos

5. Casos vivenciados

          5.1. O cobertor

         5.2. Os cachorros

         5.3. Abusos

         5.4. No quintal

         5.5. Por que choras?

         5.6. Quero ser matador

         5.7. No silêncio da noite

         5.8. No Shopping Center

         5.9. Mãe sequestradora?

         5.10. Abandono na maternidade

         5.11. Convivendo com a prostituição

         5.12. Com a faca na mão

         5.13. Avô, pai e neto

         5.14. Eu quero ser adotada

         5.15. Criança por crianças

         5.16. O retorno

         5.17. O outro lado

         5.18. Eu sou uma filha

6. Como colaborar com o Lar Paulo de Tarso

7. Conclusão 

 

1. Introdução

O Instituto de Intercâmbio do Pensamento Espírita de Pernambuco (IPEPE) realizou no ano de 2005, em parceria com a Faculdade de Ciências Humanas de Pernambuco (SOPECE), um evento que abordava a situação do menor em situação de risco social. 

Durante a exposição feita por uma promotora de justiça foi divulgado o programa Estrela Guia do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE), cujo objetivo era incentivar o apadrinhamento de crianças e adolescentes que viviam em casas de acolhimento. 

Eu e a minha esposa Glauce estávamos presentes no evento e demonstramos interesse no referido programa. Fomos ao Juizado da Infância e Juventude em Recife e nos inscrevemos. 

Algumas semanas depois já éramos padrinhos de um casal de irmãos. Assim iniciou o nosso vínculo com o Lar Paulo de Tarso. Tempos depois o casal foi adotado e hoje mora em outra cidade. 

Desde 2005, quando chegamos, até a presente data (18-04-2017), já moraram no Lar mais de 250 (duzentos e cinquenta) crianças e adolescentes de ambos os sexos. Foram muitas vivências, aprendizados e experiências. 

O objetivo deste trabalho é fornecer, de forma resumida, simples e prática, uma ideia geral da problemática da criança e do adolescente em situação de risco social de alta complexidade, bem como mostrar um pouco da dinâmica, dos desafios e das oportunidades geralmente encontradas em uma casa de acolhimento. 

Algumas das informações aqui contidas foram retiradas diretamente de registros e documentos já tornados públicos pelo próprio Lar. 

O Lar Paulo de Tarso é um somatório de esforços dos trabalhadores, colaboradores, parceiros e voluntários em prol das crianças e dos adolescentes. Não existem destaques. São "formiguinhas" somando nesta Corrente do Bem. Que Deus continue inspirando a todos!  

2. Crianças e adolescentes em situação de risco social de alta complexidade 

São as crianças e os adolescentes que estão em grave situação de risco social, que a legislação direciona para que as mesmas sejam retiradas do local em que se encontram e passem a ser protegidas integralmente. 

O Conselho Tutelar ou o Juizado da Infância e Juventude são os responsáveis pelos encaminhamentos das crianças e dos adolescentes para as casas de acolhimento. Todo o processo fica sob a coordenação geral do Juizado. 

No Lar Paulo de Tarso os principais motivos que levam ao acolhimento são:

- Uso de drogas ilícitas pelos pais ou responsáveis;

- Maus tratos;

- Abandono de incapaz;

- Abuso sexual;

- Transtorno mental dos pais ou responsáveis.

Existem situações em que encontramos alguns dos motivos acima ocorrendo simultaneamente. 

O Lar assume a guarda provisória das crianças e dos adolescentes. É um trabalho protetivo nas suas mais variadas demandas: escola, acompanhamento médico, odontológico, psicológico e espiritual, lazer, alimentação, reforço nos estudos, vestuário, entre outras. Elas passam a ser "filhas do coração".  

3. Modelo da Política Social no Brasil 

O Sistema Único de Assistência Social (SUAS) define a família como o grupo de pessoas que se acham unidas por laços consanguíneos, afetivos e/ou de solidariedade, que se encontram em situação de risco ou vulnerabilidade social. 

Dentro de uma visão abrangente, destacamos também a definição da assistente social Aldaíza Sposati (SP): família é a que se apresenta. 

A Constituição Brasileira de 1988 deu um passo adiante no que se refere a uma maior profissionalização no aspecto da assistência social, agregando à boa vontade um processo de melhoria na legislação, organização e dinâmica de gestão. Tivemos então o início de forma objetiva da chamada Política Nacional de Assistência Social (PNAS). 

No ano de 2004 foi efetivada a nova Política Nacional de Assistência Social, que está em vigor até hoje. 

No Sistema Único de Assistência Social (SUAS) a Proteção Social é dividida em Básica e Especial, sendo a Especial subdividida em Média Complexidade e Alta Complexidade. 

O Lar Paulo de Tarso encontra-se dentro da Alta Complexidade, pois o que a caracteriza é a necessidade da proteção integral pelo acolhimento. As crianças e os adolescentes moram no Lar, cabendo a este assumir todos os cuidados de forma diuturna.  

4.  Lar Paulo de Tarso

4.1. Finalidade

O Lar Paulo de Tarso caracteriza-se como uma Organização Não Governamental (ONG), sem fins lucrativos, mantida por parcerias, sócios, convênios, doações da sociedade e iniciativas outras (realização de bazar, eventos etc.). 

O seu lema é "Reconstruindo Vidas com Amor". Tem como missão "acolher de forma integral crianças e adolescentes em situação de risco social de alta complexidade, somando com todos os que trabalham por uma sociedade fraterna, sem discriminações, espiritualizada e tendo o BEM como eixo de agregação". 

Como valores éticos possui o "Sim à Vida desde a Concepção", a "Cultura de Paz" e a "Espiritualidade do Ser".

Desenvolve programa de acolhimento integral cujo funcionamento é regido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) – Lei 8.069/90. Oferece um lar a 15 (quinze) crianças e adolescentes de ambos os sexos encontradas em situação de risco social de alta complexidade, ou seja, abandono, abuso sexual, negligência e maus tratos. Devido à rotatividade, acolhe mais de 25 anualmente. Esse trabalho também é extensivo às respectivas famílias. 

A sua diretoria é formada por voluntários, sem qualquer tipo de remuneração. Possui o Certificado de Entidade Beneficente de Assistência Social (CEBAS), o Título de Utilidade Pública Federal, assim como toda a documentação legalmente exigida. 

As crianças e os adolescentes são encaminhadas pelos Conselhos Tutelares e Juizado da Infância e da Juventude da Capital até que as mesmas possam retornar para a família de origem ou, quando esgotada esta possibilidade, ingressarem numa família substituta (guarda, tutela ou adoção). 

O Lar considera a casa de acolhimento um espaço ético, fraterno, agradável e de promoção do desenvolvimento biopsicossocial e espiritual, independente do tempo em que elas necessitem dessa medida protetiva. 

Em parceria com Juizados Criminais, o Lar também participa da ressocialização de cumpridores de penas alternativas ao proporcionar atividades aos mesmos. 

4.2. Histórico

A reunião inicial de formação ocorreu em 30-11-1990 no Centro Espírita Paz, Luz e Caridade situado à época na rua Titara, UR-3, 94, Ibura, Recife-PE. Em 27-05-1991 foi realizada a Assembleia Geral para a sua fundação legal. A instituição teve origem em ambiência espírita conforme a codificação de Allan Kardec. 

Inicialmente o Lar funcionou no Lote 23, Quadra 25, Conjunto Residencial 27 de Novembro, Ibura, Recife-PE.

Em 06-09-2001 devido aos novos desafios que se apresentavam, o Lar Paulo de Tarso passou a funcionar no seu atual endereço localizado na rua Clotilde Machado, 80, Ipsep, Recife-PE. Neste período uma nova diretoria foi eleita. Seguindo o processo fraterno, participativo e democrático outras diretorias se sucederam.

A partir desta mudança, o Lar Paulo de Tarso passou a interagir com o Núcleo Espírita Auta de Souza (NEAS) situado na rua Itaimbé, 575, Ipsep, Recife-PE. Esta interação apresenta algumas interfaces de atuação, que é facilitada pela proximidade física entre ambos.

Destacamos a participação semanal das crianças e dos adolescentes em atividades infanto-juvenis do Núcleo Espírita Auta de Souza (NEAS), dentro de um aprendizado visando a Espiritualidade do Ser.

4.3. Estrutura organizacional 

É constituída por uma diretoria executiva e um conselho fiscal, ambos eleitos a cada três anos por uma assembleia geral formada pelos seus sócios, conforme especificado no estatuto. 

A diretoria executiva tem a seguinte formação:

- Diretoria Geral;

- Diretoria Administrativa;

- Diretoria de Acompanhamento à Criança e Adolescente;

- Diretoria Financeira;

- Diretoria de Patrimônio e Serviços Gerais;

- Diretoria de Relacionamento Público.

O seu Conselho Fiscal possui 03 membros titulares e um suplente. 

A sua equipe é formada por cuidadoras, assistente social, psicóloga, educadora, recreador e demais voluntários com atribuições diversas. 

4.4. Diretrizes

Diante do panorama social que envolve crianças e adolescentes em situação de risco social de alta complexidade, o Lar atua com uma ação interventiva pautada nas seguintes diretrizes:

- Garantir a proteção integral às crianças e adolescentes acolhidas (espiritualidade do ser, educação, alimentação, saúde, lazer, cultura, convivência familiar e comunitária);

- Inseri-las e mantê-las no ensino formal;

- Realizar trabalho social com as famílias (intervenções psicossociais para o apoio, acompanhamento e fortalecimento dos vínculos familiares);

- Contribuir com a inserção em família substituta (guarda, tutela e adoção), quando esgotadas as possibilidades de reinserção familiar;

- Prepará-las gradativamente para o desacolhimento nos casos de reinserção familiar ou inserção em família substituta;

- Garantir a convivência comunitária e a participação das pessoas da comunidade na realidade do Lar;

- Acompanhar os processos judiciais (medidas ajuizadas em relação aos acolhidos e suas famílias que resultarão ou não na reinserção familiar, bem como regularizar documentos e elaborar relatórios psicossociais encaminhados aos processos);

- Articular com a Rede de Atendimento à criança e ao adolescente (integrada por Conselhos Tutelares, Centro de Referência da Assistência Social - CRAS, Juizado da Infância e da Juventude, Ministério Público, Distritos Sanitários, escolas e creches públicas, Prefeituras, Secretarias Estaduais e Municipais, empresas privadas, associação de moradores etc.);

- Oferecer instalações físicas que propiciem um ambiente acolhedor e similar a uma residência, um atendimento personalizado e em pequenos grupos, o não desmembramento de grupo de irmãos, os registros escritos e fotográficos da história de vida das crianças e dos adolescentes etc. 

4.5. Dinâmica 

Pela sua própria razão de ser, o dia a dia é de intensa atividade em todas as suas vertentes de atuação. Por tempo indeterminado, podendo levar dias, meses ou anos, é a nova moradia das crianças e dos adolescentes, com todas as suas necessidades e atenções diárias. 

Em função da rotatividade e das características de atuação destacamos alguns aspectos que se diferenciam de um lar comum, que exigem uma dinâmica própria:

- As crianças e os adolescentes chegam de origens diferenciadas, trazendo costumes e aspectos educacionais variados, exigindo um esforço de adaptação individual e coletivo; 

- Elas possuem idades diversas, algumas com costumes mais ou menos cristalizados, exigindo uma atenção específica; 

- Devido à excepcionalidade do acolhimento, todas possuem um processo no Juizado da Infância e Juventude, exigindo um acompanhamento contínuo no aspecto individual e familiar, que é feito pela equipe técnica. Periodicamente esta mesma equipe reúne-se com o Juizado para o acompanhamento de cada caso dentro de audiências específicas; 

- O sempre recomeço, pois um dia elas serão desacolhidas abrindo vagas para outras que se encontram em situações parecidas com as delas originalmente. 

Destacamos alguns aspectos do dia a dia dessa dinâmica:

 

             4.5.1 Educação e cultura 

Quando as crianças e os adolescentes chegam são imediatamente realizadas as ações para o ingresso na escola. A quase totalidade apresenta grande carência educacional, inclusive algumas não estavam estudando. 

A prioridade é matriculá-las em escola pública municipal ou estadual existente no bairro, que pela proximidade física viabiliza o deslocamento sem a necessidade de transporte. Elas são divididas nos turnos da manhã e da tarde. Em casos excepcionais, quando têm dificuldades de encontrar vagas de imediato nas escolas citadas, matricula-se temporariamente em uma escola particular também próxima, custeando as mesmas com o apoio de colaboradores. 

Durante o dia a dia existe o horário do reforço no estudo, que é realizado por uma educadora apoiada por voluntários. Este trabalho é muito importante para elas acompanharem o ritmo escolar. 

Também são programadas periodicamente visitas a museus, espaço ciência, memoriais, monumentos históricos, jardim botânico, entre outros.

 

             4.5.2 Cuidados com a saúde

A maioria chega com cartões de vacinação desatualizados ou inexistentes. É comum a existência de deficiências na saúde, bem como fragilidades com a higiene. Os procedimentos para a resolução destes problemas são imediatamente executados.

Têm alguns profissionais de saúde que apoiam gratuitamente, onde destacamos as áreas de pediatria, odontologia e enfermagem. São realizados acompanhamentos periódicos nos respectivos consultórios.

Em casos emergenciais utiliza-se a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) próxima ou hospitais públicos mais amplos, situados em bairros circunvizinhos.

Nas situações que exigem ato cirúrgico usa-se um hospital público situado em outra área da cidade. Já ocorreram algumas intervenções cirúrgicas com internamento por alguns dias. Isto requer uma nova dinâmica interna, pois ocorrerá o deslocamento de um adulto para o acompanhamento.

Devido aos problemas vivenciados enquanto estavam na situação de risco social de alta complexidade, bem como as consequências que isso representa na convivência diária, elas carecem de uma terapia psicológica.

Na impossibilidade financeira de ter um atendimento para todas, são escolhidos os casos mais graves para serem priorizados. Geralmente uma terça parte das crianças e dos adolescentes passa pela respectiva terapia, ocorrendo substituição quando alguma é liberada pelo término do tratamento ou na ocorrência do desacolhimento por decisão judicial.

            4.5.3 Familiares das crianças e dos adolescentes

Para as crianças e os adolescentes que ainda possuem vínculos familiares procura-se facilitar a interação entre eles, sempre seguindo a orientação do Juizado. São estabelecidos horários para as visitas, abrindo exceções quando o bom senso assim sinaliza. 

Durante as visitas dos familiares ao Lar também é realizado um trabalho no campo do diálogo e orientação com os mesmos, procurando-se resolver ou atenuar dificuldades que levaram ao quadro da obrigatoriedade do acolhimento. 

Enquanto elas morarem no Lar a guarda provisória estará sob a responsabilidade legal do mesmo, por delegação dada pelo Juizado. Durante este período os familiares não possuem poder de decisão sobre as mesmas. 

Periodicamente estes familiares também são visitados pela assistente social e psicóloga do Lar, tendo como objetivo principal fazer um relatório minucioso da situação familiar, que será utilizado nas audiências com o Juizado como um importante insumo para as futuras decisões. 

Nessas audiências são analisadas as opções de futuro para essas crianças e adolescentes: 1- Reinserção na família de origem 2- Inserção em família extensa (avós, tios etc.) 3- Destituição familiar e ingresso no Cadastro Nacional de Adoção (CNA) 4- Permanecer no Lar Paulo de Tarso.

             4.5.4 Lazer

São várias as iniciativas nesse sentido, onde destacamos:

- Recreação aos sábados pela manhã;

- Atividades artísticas e ambientais;

- Museus, bibliotecas públicas;

- Jardim Botânico, Horto de Dois Irmãos, Parques da Jaqueira e Dona Lindu;

- Shopping center, cinemas, circos;

- Praia e piscina;

- Esportes e diversão em pracinha no bairro;

- Recebimento de visitas de grupos ou individuais;

- Outras.

Conta-se também com o importante apoio de voluntários para a execução das ações citadas.

            4.5.5 Espiritualidade do ser

Existe uma preocupação com o bem estar biopsicossocial e espiritual de todos. A espiritualidade do ser é considerado um valor ético no Lar. É interpretada como um viver na fraternidade diante da infinitude espiritual da vida. 

Tem como base de reflexão o "conhece-te a ti mesmo" e como postura de ação o "amar ao próximo como a si mesmo". É uma busca constante pelo equilíbrio de viver com o necessário em termos materiais, ter a consciência tranquila nos aspectos morais e a fé em Deus diante do futuro. 

Em sintonia com este valor, querer fazer o BEM é a premissa de acesso às atividades, onde as pessoas convivem independentemente das suas aderências religiosas, filosóficas, científicas ou de quaisquer outras matizes. O clima interno é de profundo respeito pelas diferenças. 

As pessoas atuam dentro de uma salutar diversidade que nunca gerou qualquer problema, mas sim ajuda todas a serem mais compreensivas, menos orgulhosas, mais humildes, menos egoístas, mais humanas. 

A dinâmica educacional visa a espiritualidade do ser: 

- Aprender a conhecer: "conhecereis a verdade e ela vos libertará";

- Aprender a ser: "sede perfeitos como perfeito é o vosso Pai celestial";

- Aprender a fazer: "reconhece-se a árvore pelo fruto";

- Aprender a conviver: "fazei aos outros o que desejaríeis que eles vos fizessem". 

Existem atividades educativas que ajudam nessa busca contínua de espiritualidade do ser, como a prática diária da oração, a participação semanal das crianças e dos adolescentes em atividades infanto-juvenis do Núcleo Espírita Auta de Souza (NEAS), a reunião semanal de Evangelho no Lar, entre outras ações. 

No dia a dia elas são incentivadas a exercitarem princípios fraternais de honestidade, solidariedade, pacifismo, perdão, cidadania, humildade, o cuidar da natureza, entre outros. 

Vale destacar o importante apoio recebido com as visitas de diversas e diferentes instituições religiosas ou laicas, bem como de pessoas físicas. Todas somando por um mundo mais ético e fraterno. O foco é somar no BEM, sem qualquer discriminação. 

            4.5.6 Diversos

Existem diversas outras atividades que acontecem diariamente no Lar, que sem as mesmas seria impraticável o seu funcionamento.

As atividades típicas do dia a dia de uma residência, como por exemplo: fazer supermercado, consertos gerais, limpeza e manutenção da casa, levar ao médico, dentista, terapeuta e à escola, preparo da alimentação, entre outras.

Por mais que se procure fazer tudo como em um lar comum, sempre existem algumas ações diferenciadas devido às exigências legais e organizacionais dentro do escopo de atuação: reuniões gerenciais e técnicas, folha de pagamento de pessoal, contabilidade, atualização de documentos e certificados, gerenciamento bancário, participação em audiências nos órgãos públicos, elaboração e prestação de contas de convênios e projetos, iniciativas para captação de recursos financeiros, elaboração do balanço patrimonial anual, recebimento de fiscalizações públicas, entre outros compromissos.

Essas atividades ocorrem em ambiente próprio e reservado dentro do Lar, evitando-se misturar com o fluxo normal dos residentes.

Também destacamos a participação nos diversos Conselhos municipais, estaduais e federais que lidam com a questão da criança e do adolescente.

Tudo exige um alto nível de comprometimento e responsabilidade dos envolvidos.

4.6. Principais desafios 

Para manter as suas atividades, são grandes os desafios diários:

                     4.6.1. Manutenção financeira 

As vertentes de sustentação são os sócios, doadores, parceiros institucionais, convênios públicos e iniciativas outras (realização de bazar, eventos etc.). 

Os convênios públicos ainda são os responsáveis pela maior parcela do aporte financeiro, mas por não serem contínuos, sofrendo intermitências, atrasos, reduções ou mesmo cancelamentos de alguns, exigem um esforço constante e intenso para a efetivação. 

Aqui cabe uma pergunta reflexiva: existiria algo mais prioritário socialmente do que proteger crianças e adolescentes completamente indefesas, que estão em situação de risco social de alta complexidade? 

        4.6.2. Rotatividade das crianças e dos adolescentes 

Uma casa de acolhimento atua como um oásis provisório. Só em casos extremos, quando elas já passaram por todas as etapas de possível solução (reinserção familiar, família extensa, adoção) e não obtiveram êxito, então ocorre a permanência no Lar. 

Esta rotatividade leva a um processo contínuo do recomeçar, pois a maioria chega com carência em diversos aspectos: algumas não utilizavam o vaso sanitário, outras não dormiam em colchão, não se alimentavam na mesa, não faziam higiene bucal etc. 

A equipe tem que estar preparada para as interrupções e recomeços, pois quando elas estão crescendo e se adaptando geralmente chega a hora de sair, recomeçando todo o trabalho com as novatas. 

        4.6.3. Origens diferenciadas 

Em função da peculiaridade de uma casa de acolhimento, as crianças e os adolescentes chegam de famílias diferenciadas, geralmente com costumes, vivências e princípios educacionais bem diversos. 

Isso gera um desafio especial no processo de adaptação das novas com as que estão há mais tempo. 

Em função da rotatividade este desafio é contínuo.   

        4.6.4 Problemas psicológicos 

Elas chegam ao Lar por estarem precisando urgentemente de um acolhimento com proteção integral. 

Como consequência deste fato geralmente também precisam de acompanhamento psicológico para superação de variados problemas vivenciados. 

4.7. Resultados Percebidos 

Com pouco tempo é perceptível a melhoria individual. Dois motivos podemos destacar: a retirada do ambiente de risco social em que se encontravam e o "zelo no cuidar" que caracteriza o Lar. 

Não são mais agredidas fisicamente e psicologicamente, bem como são inseridas em todo um processo de educação integral. O impacto para elas é imediato, proporcionando em todas, naturalmente, um desabrochar da alegria. 

Como evidências de melhorias, citamos:

- As crianças passam a ser crianças, simplesmente crianças;

- Crescimento na sociabilidade;

- Ganhos da saúde física e mental;

- Avanço na escolaridade;

- Aumento na afetividade;

- Absorção de disciplina;

- Noções de espiritualidade. 

5. Casos vivenciados

Com centenas de crianças e adolescentes trazendo cada uma a sua história, são inúmeras as vivências e experiências. Selecioná-las foi uma tarefa muito difícil.

Listamos apenas alguns casos como exemplos reflexivos, apresentando-os de forma resumida, direta e sem outras informações adicionais, mantendo com isto a privacidade legalmente e eticamente exigida.     

       5.1. O cobertor

Em um domingo à noite uma das meninas estava com frio e febre. Ela tinha 07 anos. 

Foi enrolada em uma coberta e levada por duas tias para uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA). 

Enquanto as tias faziam os procedimentos de praxe na recepção, a criança percebeu que uma mulher próxima a ela estava sentindo frio e sem cobertor. 

Em uma iniciativa de solidariedade quis entregar para a mulher o seu próprio cobertor, que deixaria ela própria sentindo o frio oriundo da febre em que se encontrava.

      5.2. Os cachorros

Uma criança de olhos brilhantes e muito vivaz. 

Enquanto morava com a mãe, um certo dia foi estuprada na sua localidade por um pessoa que tinha a idade de ser seu avô. 

O tempo passou. Um dia saiu com a mãe para o centro da cidade. Lá chegando, a mãe fez uso do "crack" deixando-a sozinha e sem recursos e orientação para o retorno. 

Pelo centro da cidade a criança começou a morar, dormindo pelas ruas. Lá foi estuprada pela segunda vez. 

Para se proteger dos "homens" passou a dormir junto com os cachorros. O poder público soube dessa situação e a retirou da rua, encaminhando-a para uma instituição. Foi estuprada pela terceira vez. 

O Poder Público a encaminhou para o Lar.

      5.3. Abusos

Em um final de semana chegou uma menina com menos de 07 anos. 

Vinha para ser protegida de supostos abusos sexuais que estariam sendo cometidos pelo pai e pelo padrasto, além da possibilidade do envolvimento de outras pessoas próximas. Todos estavam sendo investigados pelas autoridades competentes para a apuração das responsabilidades. 

Ela morou alguns anos no Lar.

      5.4. No quintal

Uma menina de 05 anos. Magra, subnutrida, carente de higiene, debilidades na saúde. 

No primeiro dia senta na mesa para almoçar junto com as demais. Para surpresa da tia não toca no prato de comida, mesmo estando com fome. 

Termina o almoço e a tia a observa. A menina olha para um lado e para o outro e sai devagarzinho em direção ao quintal. A tia a acompanha de longe e observa ela se alimentando diretamente do lixo. 

Ela não sabia almoçar na mesa, pois a sua vivência era de rua.     

      5.5. Por que choras?

Uma criança agressiva, não sabia brincar. Qualquer movimento com as demais era com violência. 

O seu histórico era na rua com a mãe, que utilizava drogas e vivia na miséria material. Tinha o costume de bater constantemente na criança para que a mesma chorasse e as pessoas ao passarem pela rua ajudassem, pensando que o choro fosse ocasionado pela fome. 

Aos poucos a criança foi ficando menos agressiva.

      5.6. Quero ser matador

Um menino foi levado pelo Conselho Tutelar. Estava passando por situações de agressividade por pessoa próxima, inclusive com suspeitas de queimaduras quando ocorria alguma contrariedade no adulto. Menino muito inteligente. 

Uma vez disse que quando crescesse seria um matador, pois seguiria a "carreira" do pai. Afirmava que tinha visto o mesmo matar uma pessoa. 

Muitos diálogos, acompanhamento educacional, psicológico e espiritual para que mudasse a sua disposição mental. 

Na semana em que ocorreria o desacolhimento, um tio lhe perguntou outra vez o que ele queria ser quando crescesse. Para surpresa geral ele repetiu que seria matador. 

Depois de todo um esforço coletivo, a resistência do menino em mudar de opinião sobre o futuro parecia irredutível. Foi quando o tio lembrou de uma estratégia psicológica utilizada por Divaldo Pereira Franco em um episódio similar ocorrido na Mansão do Caminho (Salvador-BA).

O tio então se virou para o menino e teve o seguinte diálogo: 

- Tio: já que você quer ser matador, então eu só lhe peço que você prometa uma coisa para mim;

- Menino: assim não vale, prometer sem saber o que será;

- Tio: você confia ou não em mim? Acha que eu pediria algo impossível ou que prejudicaria você?

- Menino: não. Confio no senhor. Pode pedir e eu prometo que farei.

- Tio: como você insiste em ser matador, prometa-me que quando você for matar a primeira pessoa, essa pessoa seja eu. Só depois de você me matar, você matará outras pessoas.

- Menino (impactado e surpreso): não, não posso matar o senhor. Isso nunca!

- Tio: então, vai ser matador?

- Menino: não, não serei matador. Não posso matar o senhor. 

Tio e menino se abraçaram e oraram juntos o Pai Nosso.

      5.7. No silêncio da noite

Em um dia à noite, uma conselheira tutelar chegou com uma criança de 04 anos. Era um dia bastante chuvoso. 

Ela foi encontrada sozinha sentada na calçada de sua casa. O pai tinha sido preso e a mãe se encontrava pelos labirintos da drogadição. 

O Lar estava com o quantitativo máximo de sua capacidade, sem nem possuir colchão para ser disponibilizado. A criança estava com febre e deitada no sofá da sala aguardando a definição sobre a possibilidade de acolhimento. Haveria como negar? 

Foi acolhida. Poucos dias depois surpreendentemente também chegou o seu irmão, que não se encontrava em casa no momento do acolhimento dela.

      5.8. No Shopping Center

Um menino corria descalço com um amigo por um Shopping Center. O vigilante chamou os dois. O amigo conseguiu fugir, ele não. 

Feito o contato com o Conselho Tutelar devido ao abandono da criança, o menino foi levado para o Lar. 

Passou um mês e ninguém foi procurá-lo. Com a autorização do Juizado da Infância e Juventude, a sua fisionomia frontal apareceu na mídia televisiva com o objetivo de ser reconhecido por alguém.

Após a aparição, alguns contatos foram feitos e descobriu-se que o menino morava em um local bastante carente da cidade. Foi uma equipe tentar contatar os possíveis familiares, visando analisar depois junto ao Juizado a possibilidade de um futuro processo de reinserção familiar. 

Chegando no endereço indicado foi encontrada apenas a sua irmã de 03 anos, em completa situação de abandono e miserabilidade. 

A irmã foi levada para também morar no Lar.

      5.9. Mãe sequestradora?

Um menino é recebido como sempre com toda a atenção e carinho. O motivo seria o envolvimento de sua mãe com o alcoolismo. 

Com menos de dois dias a mãe foi visitá-lo. Estava chorando e desesperada devido à separação do filho. Em certo momento, em uma atitude impulsiva, agarra o menino e sai correndo pela rua. 

Foram feitos os procedimentos legais de contato com os órgãos competentes para o devido resgate da criança dos braços da mãe, que por um momento de profunda dor estava agora na condição de "sequestradora". 

Uma mãe envolvida no vício, em desespero pela separação do filho. Momento de compaixão e reflexão.

      5.10. Abandono na maternidade

Nasce uma criança em uma maternidade pública da nossa cidade. A mãe desaparece e a abandona. Após vários contatos, a avó paterna e o pai resolvem levá-la para a casa deles. 

O tempo passa, o pai é preso. A avó deixa a criança abandonada em casa por longos períodos, em função de suas atividades no campo da prostituição. 

A criança chegou no Lar em estado de completo abandono.     

      5.11. Convivendo com a prostituição

Um casal de irmãos morava em condições de miséria em uma casa pequena com a sua genitora. 

A mãe vivia financeiramente da prostituição, onde quase diariamente levava homens diferenciados para dormirem com ela no mesmo ambiente das crianças, que presenciavam tudo. 

As crianças chegaram com impulsos nervosos característicos, necessitando de acompanhamento psicológico.

      5.12. Com a faca na mão

Um menino chegou em um final de semana. Muito agitado e agressivo. Não queria obedecer as tias. 

Morava com a avó. Em certo dia entrou em um bar e deu um murro nas costas de um homem. Este pegou um revólver e colocou o cano dentro da boca do menino. A avó gritou desesperada e o homem não finalizou o crime. 

Mais na frente o menino pegou uma faca e tentou matar a própria avó. Este foi o ponto culminante para que ocorresse o acolhimento. 

Aos poucos ele foi se acalmando. 

           5.13. Avô, pai e neto 

Durante um período de sua vida uma criança morou na rua com o próprio pai, dormindo diversas vezes pelos viadutos. Ela foi acolhida. Pouco tempo depois, o pai foi assassinado na rua. 

O seu avô paterno, que possuía uma boa condição financeira, passou a interagir com o Lar. Conseguiu a guarda provisória da criança junto ao Juizado, levando-a para outra cidade. 

Os dramas infantis existem em todas as classes sociais.     

      5.14. Eu quero ser adotada

Uma criança chegou com um desejo pouco comum: ser adotada. Não queria de forma alguma retornar para a família. 

Geralmente as crianças chegam inseguras e com anseio de retorno para a família de origem. Ela afirmava peremptoriamente que queria ser adotada. Quais seriam os motivos que faziam esta criança rejeitar a família de origem? 

O seu sonho foi realizado. Após algum tempo ela foi adotada.

      5.15. Criança por crianças

Em uma noite chegaram quatro viaturas da polícia e um conselheiro tutelar. Estavam levando seis crianças. Foi uma busca e apreensão autorizada pelo Juizado da Infância e Juventude. 

A mãe tinha desaparecido e o pai ausentava-se prolongadamente, além de suspeitas de agressões físicas a algumas delas. 

Quando o conselheiro tutelar e a polícia chegaram na casa das crianças, encontraram apenas a mais velha cuidando das demais. Nenhum responsável estava no ambiente.

      5.16. O retorno

Nem sempre tudo são flores em uma reinserção familiar. Existe uma expectativa, uma torcida para que tudo dê certo. Ao serem desacolhidas, todas são acompanhadas, no mínimo, durante seis meses. Recebem visitas periódicas da assistente social e da psicóloga do Lar. 

Após anos de moradia, foram desacolhidas 03 crianças irmãs. Houve uma reinserção familiar. 

Meses depois as crianças retornaram à situação original de risco social de alta complexidade. Todas foram reacolhidas no Lar.

      5.17. O outro lado

A mãe visitava a criança esporadicamente no Lar. Ela tinha uma vida desestruturada. O tempo passou. A criança foi adotada. 

Depois da adoção e por um bom período, a mãe biológica continuava indo no Lar em busca de informações, carregando nitidamente a dor da separação.

      5.18. Eu sou uma filha

Em um dos bate-papos das crianças e dos adolescentes sobre os mais variados assuntos, certa vez conversavam sobre o futuro. 

Em certo momento uma menina de 08 anos disse que sabia que um dia deixaria o Lar, mas que ela era uma filha ali. Sentia-se amada, cuidada, protegida, ninguém batia nela, tinha tudo aquilo que nunca pensava em ter. 

Ela então parou, se virou para um tio, abraçou e beijou. Simplesmente inesquecível! 

6. Como colaborar com o Lar Paulo de Tarso

O Lar Paulo de Tarso não terceiriza o seu processo de colaboração. Não existem intermediários.

No site www.iclarpaulodetarso.org.br no menu "Como Colaborar" tem o passo a passo sobre as várias formas de participação (voluntários, doações, sócios, parceiros, apadrinhamentos, visitas etc.).

Para uma doação financeira os dados são:

- Instituição de Caridade Lar Paulo de Tarso

- CNPJ: 35.618.933/0001-21

- Banco: Banco do Brasil (001)

- Agência: 1836-8

- Conta corrente: 19346-1

Envie o comprovante de doação para O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. e o respectivo recibo será emitido.

7. Conclusão

Os momentos vividos nos levam para mergulhos meditativos: o se colocar no lugar do outro, o estar ao lado, o sentir, o dividir. É um convite constante para o "conhece-te a ti mesmo".

Cresce em nós a contínua certeza de que devemos cuidar cada vez mais das "filhas e filhos do coração", mas também aprendemos a respeitar, compreender e ter sentimento de compaixão pelos seus respectivos pais ou responsáveis.

As forças destes estariam fraquejando diante das duras provas da vida? Se tivéssemos vivido o histórico de cada um deles, como estaríamos hoje? Fortes ou andarilhos pelos labirintos da dor e do desespero? Não sei, mas o que eu sei é que não farei sobre eles qualquer juízo de valor.

O Lar Paulo de Tarso nos ensina a cada dia de que a nossa grande família é a humanidade. A fraternidade nos faz todos "irmãos do coração". Vale a pena somar nesta Corrente do Bem. Que Deus sempre ampare o Lar! 

"Ame a teu próximo como a ti mesmo e não faça aos outros o que não quer que façam contigo."  - Jesus
 

 FIM

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